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terça-feira, 5 de maio de 2009

O cão sem plumas, João Cabral de Melo Neto


[daí que, na casa de um colega, digo que amo este poema. e ele, pra esnobar, mostra o livro autografado pelo próprio joão cabral. e eu, que não sei nada de poesia, amo. amo como quem não conhece, por isso amo. amo a construção dos versos, a simplicidade das palavras e a complexidade das ações repetidas. gosto da sonoridade, gosto da relação do rio com o homem com o cão e suas margens - a margem do rio à margem do homem, do cão. eu gosto da palavra espessa, eu gosto da voz de joão cabral. como o real é espesso, a maçã é espessa, a árvore é espessa, o poema também é. eu, que não sei a diferença entre poesia e poema, admiro joão cabral de melo neto. admiro a literatura, admiro palavras umas após as outras numa linha horizontal e admiro versos pequenos e bonitos, uns abaixo, outros acima. com rima ou sem rima. gosto mesmo é de poema. e de poesia]


IV. Discurso do Capibaribe 

Aquele rio 
está na memória 
como um cão vivo 
dentro de uma sala. 
Como um cão vivo 
dentro de um bolso. 
Como um cão vivo 
debaixo dos lençóis, 
debaixo da camisa, 
da pele. 

Um cão, porque vive, 
é agudo. 
O que vive 
não entorpece. 
O que vive fere. 
O homem, 
porque vive, 
choca com o que vive. 
Viver 
é ir entre o que vive. 

O que vive 
incomoda de vida 
o silêncio, o sono, o corpo 
que sonhou cortar-se 
roupas de nuvens. 
O que vive choca, 
tem dentes, arestas, é espesso. 
O que vive é espesso 
como um cão, um homem, 
como aquele rio. 

Como todo o real 
é espesso. 
Aquele rio 
é espesso e real. 
Como uma maçã 
é espessa. 
Como um cachorro 
é mais espesso do que uma maçã. 
Como é mais espesso 
o sangue do cachorro 
do que o próprio cachorro. 
Como é mais espesso 
um homem 
do que o sangue de um cachorro. 
Como é muito mais espesso 
o sangue de um homem 
do que o sonho de um homem. 

Espesso 
como uma maçã é espessa. 
Como uma maçã 
é muito mais espessa 
se um homem a come 
do que se um homem a vê. 
Como é ainda mais espessa 
se a fome a come. 
Como é ainda muito mais espessa 
se não a pode comer 
a fome que a vê. 

Aquele rio 
é espesso 
como o real mais espesso. 
Espesso 
por sua paisagem espessa, 
onde a fome 
estende seus batalhões de secretas 
e íntimas formigas. 

E espesso 
por sua fábula espessa; 
pelo fluir 
de suas geléias de terra; 
ao parir 
suas ilhas negras de terra. 

Porque é muito mais espessa 
a vida que se desdobra 
em mais vida, 
como uma fruta 
é mais espessa 
que sua flor; 
como a árvore 
é mais espessa 
que sua semente; 
como a flor 
é mais espessa 
que sua árvore, 
etc. etc. 

Espesso, 
porque é mais espessa 
a vida que se luta 
cada dia, 
o dia que se adquire 
cada dia 
(como uma ave 
que vai cada segundo 
conquistando seu vôo).


.
.
.

14 comentários:

Lubi disse...

ei, ei!
você me mandou esse discurso do capibaribe para ouvir, um dia. e eu gostei muito.
:)

entende de poesia quem sabe se emocionar com ela.

beijo!

Lubi disse...

'porque é mais espessa a vida que se luta cada dia, o dia que se adquire cada dia'. clap clap.

Conrado Falbo disse...

não sei se você conhece esse curta (Recife de dentro pra fora). se não, cá estão os links:

parte I -
http://www.youtube.com/watch?v=AfZ-DK03C6I
parte II -
http://www.youtube.com/watch?v=zySy12S4bnA&feature=related

apesar do apresentador chamar o rio CAPIBARIBE de JAGUARIBE; do tamanho do vídeo ser pequeno demais; e da qualidade do som ser péssima, dá pra ter uma idéia do vídeo e da versão musicada do poema de joão cabral.

Cleyton disse...

Eu amo quem ama João. Pode ser um cão com ou sem plumas.

Juliana Cruz disse...

nao gosto de gente que esnoba...

Juliana Cruz disse...

nao gosto de gente que esnoba...

Cleyton disse...

Droga! Cai do gmail e não tô conseguindo voltar. Depois falamos. Abçs.

Ana disse...

Nossa lindo...lindo....lindooo
Gosto um tantão (assim ôoo)de João Cabral de Melo Neto....gostei muito de:

As duas cidades, Os dois mares, Outros rios, Conversa de rios e Alto do Trapuá...as poucas quirelas que conheço...

Já este desconhecido...

E o video do gato e rato é muito, muito fofo...mas triste que só...(dá vontade de chorar)..assisti + ou - 5 x.....de tanto q gostei...

Victor Franco disse...

Sem palavras quanto ao poema/poesia. Lucas, estou sensibilizado com o que escreveu. Um falso poema, uma leveza. O vídeo é lindo. Abraços.

.lucas guedes disse...

aos novos visitantes, conrado, vi o vídeo. bonito demais. obrigado.

'Ana', já vi seus comentários gentis em outro blog e deve ter sido de lá que me achou. Confesso, amei. Você tem blog?

Victor, gosto de saber que o que escrevi sensibilizou você. Adorei seus primeiros posts.

.m. disse...

Não entendendo de poema e nem poesia, assim como você, mas amando toda forma de expressão que me sensibiliza e emociona, digo que me pareceu por um momento, que você fez algo parecido no começo do texto.

Um beijo.

Ana... disse...

Oi Lucas!
Gentileza sua em dizer isto.Não coloco o link por pura discrição...não é para fazer ar de mistério não rs. Como faço o meu de "diarinho" deixo para meu deleite, muitas vezes esqueço que é um blog e escrevo, escrevo, mais a cerca de mim e no fim tudo vira futilidade....não há dicas bacanas ou coisas diferentes como neste ou no revide ou apenas palavras...mas como sou leitora assídua, permito vc ler minhas futilidades ok...rs

tô lá na Santinon, ela me "obrigou" a colocar o link... (risos)...penúltimo post...

bj.

Ana disse...

ahhhhhhh detalhe...

se não me engano,vc já havia me achado....

tem coments seu de

....é linda esta música! Caetano Veloso.



agora como??? só Jesus sabe viu!!!


hahah

.lucas guedes disse...

ana, se tenho um vicio, é frequentar blogs e se passei pelo seu e comentei é porque deve ser bom... ahahah. agora já sei qual é. grande beijo.