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terça-feira, 2 de setembro de 2008

Nome Próprio: a paixão segundo Camila Lopes


Grande vencedor do Festival de Gramado em 2008, Nome Próprio, de Murilo Salles, não é um filme comum. Baseado nos livros Máquina de Pinball (2002) e Vida de Gato (2004), da escritora Clarah Averbuck e roteirizado por Elena Soárez, tem como protagonista Leandra Leal, que também faturou o Kikito de melhor atriz em Gramado.

O filme retrata os anseios de Camila (Leandra Leal), que vai de Brasília a São Paulo, na tentativa de concretizar o sonho de ser escritora. Blogueira compulsiva – numa época em que os diários virtuais não eram tão populares como atualmente – faz questão de postar no blog tudo o que acontece em sua vida, desde coisas banais até as mais íntimas que, teoricamente, não interessariam a ninguém.

Já na primeira cena o espectador saberá se vai ou não gostar do filme. Camila está nua, chorando, enquanto seu namorado Felipe (Juliano Cazarré) tenta expulsá-la da casa onde moram. Traído, a xinga de todos os palavrões possíveis e ainda desfere um tapa no rosto da garota que, ofendida, revida. Ela sai de casa com seus discos preferidos, poucas roupas e seu computador, que faz questão de instalar assim que chega ao apartamento de um amigo, para ‘blogar’ sobre o fim do relacionamento.

O que Camila não imaginava era que faria tanto sucesso, a ponto de atrair leitores de todo o Brasil. Estes leitores passam a encaminhar e-mails apoiando e/ou criticando a blogueira, por seu comportamento pretensamente “libertário”, quando afirma publicamente, por exemplo, que faria sexo com o primeiro homem que aparecesse em sua frente ou então que queria beber sozinha num bar. E é desse modo que as tramas se sucedem, emaranhadas a situações inesperadas, como a perda do apartamento, a mudança para outra cidade e os vários homens com que se relaciona.

Nome Próprio foi filmado com câmeras digitais e um orçamento de apenas R$ 1,2 milhão. As tomadas, captadas em São Paulo e Rio de Janeiro foram, em sua maioria, realizadas em apartamentos, ruas e bares reais, no intuito de economizar com locações. Outra estratégia bastante eficiente foi a de divulgação, quase que inteiramente pela internet. Além do blog criado exclusivamente para o filme (http://nomepropriofilme.blogspot.com), foram organizadas várias pré-estréias exclusivas para blogueiros e leitores do blog, além de uma exibição fechada só para usuários da rede social virtual Myspace e e-mails do próprio diretor, criticando o modelo de distribuição cinematográfica e incentivando o público a assistir ao seu filme.

A tentativa de atingir o público que usa a internet funcionou. Em dezenas de blogs foram postadas informações sobre o filme, mas muitas críticas foram negativas. Alguns protestaram dizendo que o filme nada teria a ver com o universo de um verdadeiro blogueiro, alegando que as situações retratadas ali não passariam de versões deformadas de uma garota mimada. Ou ainda, porque um dos personagens, o Guilherme, interpretado por David Katz (indicado ao prêmio de melhor ator em Gramado) seria um clichê extremista de um nerd, o que poderia criar uma imagem distorcida dos blogueiros.

O ponto forte do filme é a atuação de Leandra Leal. Desprendida de qualquer estereótipo que sua participação em novelas pode causar, a atriz convence com seu jeito simultaneamente de menina revoltada e de mulher independente e bem resolvida. Tecnicamente impecável, parece que a personagem foi escrita exclusivamente para ela. O texto pode não ter sido exclusivo, mas a própria autora dos livros em que o filme é baseado, Clarah Averbuck, afirma que a escolha do diretor não poderia ter sido melhor.

Apesar do roteiro ser baseado em seus livros, Clarah (que é fã de Charles Buckowski, John Fante e do brasileiro Paulo Leminski), faz questão de esclarecer que o filme não retrata sua vida, assim como seus livros também não. O próprio diretor também explicou algumas vezes que os textos da escritora serviram apenas como base para o filme, mas há também trechos de outros blogs e da filósofa Viviane Mosé, notadamente, aqueles que ocupam a tela enquanto Camila digita em seu blog.

Transitando entre literatura ficcional, poesia e vida real o filme segue em ritmo acelerado, apesar das várias cenas em que o silêncio se faz necessário. O roteiro colabora para dar à obra um tom cinematográfico cuja narrativa é a da desconstrução, em que pouco importa a ordem dos acontecimentos, tornando algumas cenas atemporais. Fugindo da antiga tendência do cinema brasileiro em mostrar seus morros ocupados por traficantes, ou de intermináveis extensões de novelas televisivas, Nome Próprio é uma viagem ao interior da personagem Camila, que só quer viver intensamente suas paixões, sobretudo pela literatura e por si mesma.

Nome Próprio. BRASIL - 2007/2008. Direção: Murilo Salles. Elenco: Leandra Leal, Frank Borges, Luciano Bortoluzzi, Luciana Brites, Juliano Cazarré, David Katz, Milhem Cortaz, Alex Disdier, Reginaldo Faidi, Fábio Frood, Ricardo Galli, Ricardo Garcia, Rosane Holland. Duração: 120 min.
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5 comentários:

Iva disse...

Humm Já andei pesquisando sobre esse filme, depois que vc falou...Sei não. E a Leandra Leal, apesar de ser boa atriz, tem péssima dicção, precisa de exercícios respiratórios. Mas vou assistir assim mesma, embora ache que deva ser meio clichêzão, ainda mais que hoje em dia, graças à LMPocket, todo mundo virou fã de Fante & Cia...rsrsrs

.lucas guedes disse...

clichê não é... agora concordo contigo com esse lance do fante.. ahahah... mas pense pelo lado bom da coisa, né... o fante foi parar na banca de jornal, não é bom?!

Iva disse...

fante nas bancas é bom, mas pessoas-usando-desodorante-fante nas livrarias é absurdo. hahaahaha

Anônimo disse...

fante nao conheço, serve fanta? (trocadilho infame)

Edu

[denise abramo] disse...

eu me assustei um pouco com a leandra leal, pra falar a verdade... é que eu já tinha assistido não-sei-qual novela das seis com ela... ahauahauhau (aquelas tipo anos 50)