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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

madalena

#2

não estava perdida, mas tinha a sensação de que não voltaria pra sua casa depois daquela noite. tinha passado por maus momentos desde aquele dia em que acordou e não tinha mais ninguém em sua casa, a não ser as sombras de um passado não tão distante. sua casa era grande e a varanda circundava quase toda sua extensão. a vista de seu quarto dava para o cemitério são paulo, mas isso nunca chegou a ser motivo de medo.

sabia que os que estavam lá eram apenas lembranças e ossos.

foram várias as vezes em que presenciou garotas e garotos pulando o muro, sempre com uma garrafa na mão. sentira vontade de fazer o mesmo, mas não via sentido naquilo. preferia velar os mortos de sua casa.

durante a primeira viagem com o dragão ela só pensava nos pais e na irmã mais nova e não conseguia entender o motivo que os fez desaparecer assim, de uma hora pra outra.

segurou mais forte em seu pescoço quando percebeu que o dragão - ainda sem nome - ia aumentar a velocidade e fazer uma curva. e foi neste momento que percebeu que a vila madalena não era apenas o bairro em que nasceu e cresceu.

era um filme que estava apenas nos créditos iniciais.


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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

madalena

#1

nunca havia entrado naquele beco antes. talvez pelo cheiro de maconha, mijo, esgoto e arruda. ou talvez pela simples ausência de motivo que justificasse uma visita. mas queria entrar. e nem o portão semi-aberto tal qual o filme de hitchcock iria impedi-la. entrou.

a luz da lua fazia sombra nas paredes grafitadas. não sabia ao certo o que a esperava, mas via dragões, flores, olhos, nuvens. nada fazia sentido e o medo do escuro era sua única companhia.

andava rente à parede, entorpecida por uma droga incolor. incolor não, invisível. invisível não, imaginária. era como se quisesse estar drogada para ser igual aos outros fantasmas que ali estavam.

os desenhos todos formavam uma mistura que não fazia bem àquela garota que só queria se esconder. mas como sumir em meio aos dragões grafitados nas paredes de um beco? como desaparecer entre flores e olhos e nuvens. e a luz da lua que insistia em acompanhá-la como uma estrela de belém?

andou mais um pouco e pela primeira vez teve dúvidas. se entrasse a direita sairia numa rua que não conhecia, mas que ao certo a levaria para fora daquele refúgio. seguiu reto e seus passos eram como os de quem pisa em vidros. só parou quando ouviu uma voz que não era de homem nem de mulher.

não assustou quando percebeu que quem falara com ela era o dragão. tão pouco teve medo da criatura que saíra da parede se espreguiçando como quem diz estou cansado de ficar imóvel enquanto as pessoas passam e me observam com cara de ó que lindo ou ó que feio ou ó que estranho.

aceitou o convite do dragão e saiu para um passeio que mudaria sua vida pra sempre.

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